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Diva Literária

Manuscrito - Acervo Clarice Lispector -
Fundação Casa de Ruy Barbosa


Por: Edwin Paladino

     "Amo a língua portuguesa. (...) Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida". Clarice Lispector, uma das maiores escritores do Brasil, fez uma declaração de amor ao idioma em seu livro A Descoberta do Mundo. Toda a obra da escritora foi baseada na busca pela palavra de significado preciso, a frase que traduzisse com exatidão a complexidade da experiência humana. Agora, Clarice é tema da exposição Clarice Lispector - A Hora da Estrela, em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, com cartas, escritos e fotografias da diva maior da literatura brasileira.

A mostra também marca os 30 anos da morte da escritora, falecida em 1977, e da publicação da novela A Hora da Estrela, seu livro mais popular. A exposição foi construída a partir do texto de Clarice. "É nas frases atordoantes - relâmpagos que subitamente iluminam o leitor - que a escritora revela o olhar agudo e, muitas vezes, perplexo com que examina a vida cotidiana", explica Antônio Carlos Sartini, superintendente-executivo do Museu da Língua Portuguesa. Com curadoria de Júlia Peregrino e Ferreira Gullar e cenografia de Daniela Thomas e Felipe Tassara, a mostra pretende revelar um pouco da alma e da obra da autora, que continua a ocupar, mesmo após três décadas de ausência, um lugar único na literatura brasileira.

Nos corredores do Museu, o espectador percorre espaços que apresentam um apanhado da vida e da obra de Clarice Lispector. Logo na entrada, imagens ampliadas do rosto de Clarice Lispector impressas em filó preto, que revelam aos que se aproximam frases da escritora. Neste espaço, as pessoas podem entrar na cabeça daquela que, na opinião do poeta Ferreira Gullar, "tentou dizer o indizível sabendo que não poderia fazê-lo". Em outro ambiente, o espaço das questões cotidianas, tão presentes na obra de Clarice. A cenografia - um cômodo mobiliado com uma cama simples - remete à obra A Paixão Segundo G.H., que se passa dentro de um pequeno quarto de empregada. Outro local apresenta as identidades, interesses e momentos de vida de Clarice Lispector. Nele, referências aos seus pseudônimos, a maternidade, a vida como esposa de diplomata e sua paixão pelos bichos.

A exposição pretende traduzir o caráter reservado e introspectivo da autora através de uma ambientação intimista. Carteiras de identidade, cartas, manuscritos e cadernos de notas estão em gavetas, que podem ser abertas pelo público para revelar o seu conteúdo. Todos os documentos exibidos pertencem ao Acervo Clarice Lispector, sob a guarda do Arquivo-Museu da Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa. A mostra também apresenta imagens de um documento e algumas fotos do Arquivo Nacional, assim como fotografias arquivadas no Instituto Moreira Salles. Outros ambientes, entretanto, usam recursos audiovisuais. Em uma pequena sala, a projeção de um inseto evoca cenas de G.H. e a discussão, intensamente presente nas obras da autora, sobre natureza e religiosidade. No último corredor da exposição, um vídeo, gravado especialmente para a exposição, mostra freqüentadores do Parque da Luz, ao lado do Museu, lendo trechos de A Hora da Estrela.

Nascida na Ucrânia, em 10 de dezembro de 1920, Clarice veio para o Brasil com pouco mais de um ano. Seu primeiro livro, Perto do Coração Selvagem, lançado quando ela tinha apenas 23 anos, provocou sensação. Nas palavras de Lauro Escorel, as características do romance revelam uma "personalidade de romancista verdadeiramente excepcional, pelos seus recursos técnicos e pela força da sua natureza inteligente e sensível". Autora de 26 livros, traduzida em 15 línguas, a autora de A Paixão Segundo G.H. e Água Viva influenciou a sua própria geração e as que vieram - o que não impediu que tivesse de fazer traduções e escrever crônicas e colunas femininas para ganhar a vida. Clarice faleceu no Rio de Janeiro, em 1977, no dia 9 de dezembro, um dia antes de seu aniversário. Mas a sua atualidade é comprovada pelas contínuas reedições de seus livros e as muitas adaptações de seus textos para o cinema, o teatro e outros meios expressivos. Imperdível!

Clique para ver mais fotos.

Clarice Lispector - A Hora da Estrela
Museu da Língua Portuguesa
Estação da Luz s/nº - Centro
Tel.: 11 3326 0775
Até 2/9
www.cultura.sp.gov.br



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